O Meio Passo Que Vai Mudar Sua Vida

Texto escrito por Leo Babauta. Traduzido e publicado com permissão.  O blog Zen Habits é muito bacana, recomendo a visita para quem entende inglês.

Você se surpreenderia se soubesse quantos emails recebo de pessoas que estão estancadas em suas vidas.

Elas estão falidas, ou desmotivadas, ou em um emprego que odeiam, ou não conseguem encontrar sua paixão, ou não conseguem motivar-se para ter uma vida mais saudável.

E elas não sabem por onde começar.

Dê o Primeiro Passo

É doloroso ler esses emails. Eles revivem a dor que vivi há não muitos anos atrás, quando eu também estava estancado.

Eu conheço o sentimento de desespero quando você está infeliz com sua vida e não sabe como mudar. Quando você tentou um monte de mudanças, mas não pôde encontrar a disciplina para mantê-las. Quando você se sente mal por saber que deveria levantar-se e começar a melhorar sua vida, mas prefere procrastinar mais um dia.

Os problemas desaparecem quando você os ignora, não é?

Também sei que, na verdade, só existe uma saída desse atoleiro de desespero.

É agir, realizar uma ação, não importa quão minúscula seja.

Você não precisa resolver tudo na sua vida agora mesmo. Você não precisa sequer resolver uma única coisa.

Você só precisa fazer uma coisinha pequena, minúscula, quase inexistente.

Meio Passo

Faça uma lista. Saia de casa e dê uma caminhada. Livre-se de parte da sua comida pouco saudável. Limpe a mesa da cozinha. Cancele algum compromisso marcado para amanhã, para que você tenha tempo de criar algo, sem importar quão pequeno seja.

Não faça todas essas coisas. Faça uma. Ou a metade de uma, ou um milésimo. Não importa quão pequena – quanto menor, melhor.

Dê esse primeiro passo. Celebre esse primeiro passo. Ame o passo, não o ponto de chegada. Esse passo, até mesmo o movimento de tirar o primeiro pé do chão e movê-lo para a frente – isso é tudo.

Essa é a verdade, e você não a verá em muitos livros de auto-ajuda: coloque cada micropartícula da sua existência nesse meio passo, seja nada mais que esse meio passo, e ame-o com tudo o que você tem… e sua vida mudou.

Com esse meio passo, tudo é diferente. Você não atingiu nenhuma meta… mas você se moveu. Você não criou algo maravilhoso… entretanto, mais do que nunca, você criou.

O Meio Passo Que Vai Mudar Sua Vida

Você criou beleza e alegria e movimento onde nada disso existia antes, onde antes só havia constrição e paralisia e confusão. Você mudou o mundo.

O Primeiro Hábito

Escolha um pequeno hábito para adicionar alegria à sua vida. Apenas um, minúsculo e milagroso.

Pode ser escrever, ou pintar, ou criar música por 2 minutos por dia. Pode ser uma caminhada ridiculamente fácil, ou uma corrida, ou desfrutar de um prato de frutas. Pode ser 2 minutos de meditação ou de reflexão em um diário.

Desfrute ao máximo disso.

Crie este único hábito, e você tem um êxito. Isto é uma fundação, um primeiro passo, a partir de onde construir.

Então você pode dar um segundo passo, e depois um terceiro, mas você não pode criá-los sem um primeiro.

Não mude sua vida inteira. Mude apenas esta pequena coisa.

Você se surpreenderá com o quanto isso importa. Eu me surpreendi.

Texto Original: The Half Step That Will Change Your Life

Images: Tom McCagherty Photography – CC | Dave Dehetre – CC

Anúncios

Quer um Fim de Ano Sem Stress e Sem Dívidas? Faça Um Orçamento

Novembro chegou, e com ele a hora de pensar nas festas de fim de ano.

(Isso, claro, se você não quer que Dezembro seja um caos de stress e dívidas que vão lhe acompanhar pelo resto do ano que vem.)

Planejamento é fundamental para um fim de ano sem crises, sem caos e sem stress desnecessário. O ideal para mim é começar esse planejamento em Outubro, mas estou atrasada, então, começarei em Novembro mesmo.

Hoje quero falar da tarefa que deve ser a primeira nesse planejamento, e é a mais difícil : criar um orçamento básico.

Quer um Fim de Ano Sem Stress e Sem Dívidas? Faça Um Orçamento
Coloque tudo no papel

Bah, talvez essa seja a segunda tarefa mais difícil; muitas vezes, manter-se dentro do orçamento é que vai ser realmente difícil. Seja como for, essas duas tarefas são as mais importantes, se você quer passar um fim de ano tranquilo e sem stress.

Vamos lá?

Quanto Vamos Gastar?

Para começar, você deve definir quanto pode gastar com as festas, no total. Total de tudo, tudo o que você vai gastar relacionado com o Natal e Ano Novo.

E você pergunta: “Mas Nospheratt, como eu vou decidir quanto vou gastar, se ainda não sei o que vou comprar?”. Esse é justamente o truque para não se atolar de dívidas nas festas, respondo eu.

Você deve gastar dentro do que você pode, e não em função do que quer comprar – e lembre-se que toooodas estas compras e gastos são coisas que QUEREMOS comprar, não que PRECISAMOS comprar.

A lógica é que a coisa funcione assim: digamos que eu tenho 150 reais para “gastos extras” todos os meses. Se eu juntar Outubro, Novembro e Dezembro, tenho 450 reais para investir nos gastos do Natal e Ano Novo.

Se eu acho isso suficiente, ótimo; já sei que não devo gastar esse dinheiro com outras coisas durante esses 3 meses, pois elas estão destinadas às festas; e já sei que meu orçamento ascende à esse valor, então tenho que dividir isso entre as minhas áreas de gastos.

Pronto – se eu me ater à isso, chegarei à Janeiro sem dívidas. 😉

Ou então, digamos que eu acho que posso gastar um pouco mais; posso pegar Janeiro e Fevereiro, também, e ter um orçamento total de 750 reais. Ótimo; já sei qual é a grana da qual disponho, quais os meses nos quais não poderei dispor desse dinheiro pra outras coisas, e em Fevereiro estarei sem dívidas. Deu para captar a idéia?

Um Sonho Possível

Para muitas, talvez isso pareça bizarro – mas é possível gastar em torno de 600 reais com as festas (Natal e Ano Novo), recebendo cerca de 15 pessoas na sua casa, e com presentes para todos.

Como? Planejando, usando muita criatividade e dando tchauzinho para o consumismo barato que só serve para nos fazer gastar e não alimenta a alma de ninguém.

É questão de querer. De estar disposta a encarar as festas como uma reunião com pessoas amadas, e não como uma competição para ver quem dá o presente mais caro ou faz o prato mais gourmet.

Diga Não Às Dívidas

Então, analise suas possibilidades, e crie seu orçamento.

Mas atenção: em hipótese alguma planeje se endividar com as festas até mais do que Fevereiro. Você quer comemorar as festas, não complicar sua vida pelo resto do ano. Se tiver que simplificar ao extremo este ano, para se adaptar ao que você dispõe, faça-o!

Será um alívio e uma felicidade não se endividar, e você pode começar a seguir um modelo melhor no ano que vem.

A Solução Ideal

Aliás, o ideal é ir juntando dinheirinhos todos os meses, para não se endividar NADA no fim do ano.

Se você começar a juntar 100 reais por mês, a partir de Janeiro de 2011, terá 1000 reais para gastar com as Festas no final de 2011.

Esse valor pode ser adaptado para cima ou para baixo, conforme as possibilidades de cada uma; mas sempre é a melhor idéia. 😉

Seja Realista

Voltando às festas deste ano: defina seu orçamento real, segundo o que você pode gastar no total – não importa se são 1000 reais, ou 100.

Se na realidade você só pode gastar 300 reais, não decida que vai gastar 600 só porque “300 é pouco” ou “300 não vai dar”. Anote seus 300 reais, e mantenha em mente que:

1 – Você está fazendo a coisa certa, ao se planejar dentro das suas possibilidades;

2 – Dinheiro (e/ou presentes caros) não compra amor, afeto, aprovação, respeito, harmonia, nem celebrações felizes – por muito dinheiro que você tenha.

3 – Se o seu dinheiro é curto, você só precisa de mais criatividade e disposição para se concentrar no que é verdadeiramente importante, para ter umas festas maravilhosas.

Como Vamos Gastar?

Quer um Fim de Ano Sem Stress e Sem Dívidas? Faça Um Orçamento
Diga não às dívidas

Agora que já sabemos o total do qual dispomos, temos que dividir nosso planejamento em “áreas”.

Coloquei os exemplos mais comuns aqui abaixo; cada uma deverá adaptar essa lista às suas necessidades, adicionando ou eliminando áreas.

  1. Presentes
  2. Comida e bebida
  3. Roupas
  4. Viagens
  5. Decoração

Depois de definir suas áreas, você deverá definir quanto vai gastar com cada uma delas, em total. Só o total de cada área – mais adiante você pode refinar o orçamento, vendo os gastos mais detalhadamente.

Olhe cada área, e destine uma soma apropriada, DENTRO DAS SUAS POSSIBILIDADES (isto é, dentro do orçamento total que definimos no começo), para cada uma. Seja realista.

Anote esse valor ao lado de cada área.

Por exemplo: se você não recebe ninguém em sua casa, pode destinar mais dinheiro aos presentes, do que à comida e bebida (mas provavelmente vai querer comprar alguma coisa para as visitas imprevistas). Se você vai viajar, não precisa de orçamento para decoração. Etc, etc.

O que me lembra: não precisa destinar grandes somas de dinheiro para a decoração. Vou tentar fazer um post sobre isso depois, mas uma decoração simples e com poucos elementos é mais que suficiente, e fica ótima. Você não precisa gastar o que não tem, tentando criar um cenografia de capa de revista.

Questão de Escolha

Como serão suas festas este ano, só depende de você.

Não depende de quanto dinheiro você tem para gastar, nem do que dizem as revistas, nem das expectativas de fulano ou beltrana.

Se você quer passar um fim de ano bacana, feliz, tranquilo, e começar o próximo ano sem dívidas, só depende de que você decida fazer um pequeno planejamento, e manter-se dentro dele.

Eu sou prova de que isso é possível. Experimente! 🙂

Image Credits: SunshinecityAlan Cleaver

Sobre Fracasso

Às vezes eu me sinto um fracasso.

Textos não escritos, emails não respondidos, tarefas incompletas, projetos que se tornam pouco menos que impossíveis.

E por momentos, sinto ódio de mim mesma. Você sabe bem como é, não é mesmo?

Fracasso

Falhar é uma coisa inaceitável para nós. Apesar de que falhar é uma coisa inerente ao ser humano, perseguimos a idéia de perfeição, de que podemos tudo, de que deveríamos fazer tudo. Sem descer do salto e sem bagunçar o penteado.

Ora, que absurdo.

Talvez seja hora de aceitar que somos humanas. Nada mais e nada menos que isso. Que cada uma de nós é uma pessoa só, que cada dia tem só 24 horas, e que é insano fazer de conta que que podemos fazer mais do que isso.

Eu já falei sobre isso antes, mas parece que não consigo me convencer dessa simples verdade. Eu sou uma pessoa só. O tempo é finito. Insistir na idéia contrária é se colocar rumo ao fracasso.

A Diferença Entre Falhar e Fracassar

Eu vejo as coisas assim: falhar é o que acontece quando não conseguimos fazer algo que pretendíamos fazer. Isso acontece todos os dias, com coisas pequenas e grandes, às vezes por culpa nossa mesmo e muitas outras por causas externas. Falhamos, analisamos a situação e no mais das vezes, decidimos tentar novamente, retomar amanhã, fazer de outro jeito… mas seguimos em frente.

Fracasso é uma coisa bem diferente. Fracasso é o que acontece quando desistimos. Quando nos damos por vencidas; seja porque não estamos mais dispostas a continuar tentando, ou porque concluímos que o objetivo se tornou impossível de ser atingido.

A importância que esse ponto de vista tem é a seguinte: enquanto você não desistir de tentar, não terá fracassado. Se não desistir, mesmo que tenha falhado hoje, poderá conseguir o que almeja amanhã. Ou depois de amanhã, ou semana que vem. Não importa. O importante é não desistir.

Pois somente não desistindo é que temos possibilidade de vitória, de atingir nosso objetivos, de resolver problemas, de encontrar soluções.

Enquanto você não se render, pode até perder várias batalhas, mas ainda terá possibilidades de vencer a guerra.

Image Credit: Vincepal – CC – By

Pudim de Pão Com Leite Condensado

Semanas atrás, eu prometi para o Arcanjo que ia publicar minha receita de Pudim de Pão com Leite Condensado.

Como eu costumo dizer, “Más vale tarde que más tarde aún!” 😛 Então, vamos lá.

Pudim de Pão com Leite Condensado

Pudim de Pão Com Leite Condensado
Qualquer tipo de pão serve!

Ingredientes

  • 6 xícaras de pão picado com casca (qualquer tipo de pão serve, inclusive pão de sanduíche, amanhecido ou não)
  • 250gr de açúcar
  • 1/2 litro de leite
  • 3 xícaras de água
  • 3 ovos grandes batidos (ou 4 pequenos)
  • 1 colher de sopa de manteiga ou margarina derretida
  • 1 colher de sopa de canela ou baunilha (opcional)
  • 1 caixa de leite condensado

Modo de Preparo

1 – Coloque o pão picado (quanto mais picado, melhor) em uma vasilha grande. Molhe o pão com a água e deixe de molho até que toda a água tenha sido absorvida e as cascas estejam moles.

2 – Adicione o leite frio e amasse com um grafo até desmanchar bem as cascas.

3 – Adicione o açúcar, os ovos batidos, a manteiga derretida, a canela ou baunilha (se for usar) e o leite condensado. Misture bem e deixe descansar um pouco. A massa vai ficar bastante líquida, não se preocupe.

4 – Unte uma forma grande (que pode ser furada no meio ou não, eu uso sem furo) com calda de açúcar. Eu uso esta receita: Calda de Caramelo

Se preferir dispensar a calda, unte a forma com manteiga e polvilhe com açúcar. Funciona do mesmo jeito, mas não fica tão gostoso, é claro. 😉

5 – Encha a forma até 2/3 da altura, no máximo. Como a massa é líquida, ela vai ferver e pode virar. Para evitar desastres, eu forro uma bandeja grande de forno com papel alumínio e coloco a forma de pudim em cima do alumínio, antes de levar ao forno. Aconselho que você faça o mesmo.

PS – Se sobrar massa (aqui sempre sobra) você pode guardá-la para assar no dia seguinte. Guarde na geladeira, em um pote hermético. O pudim fica perfeito do mesmo jeito.

6 – Pré-aqueça o forno por 10 minutos. Não faço idéia de qual é a temperatura exata, mas o forno deve estar bem quente.

7 – Asse o pudim até que as bordas estejam douradas, e o meio dele esteja firme (experimente com uma faca ou colher). Aqui leva uns 40 minutos.

Leve em conta que ele vai ganhar mais firmeza quando esfriar; basta que o centro esteja pastoso, e não líquido, para apagar.

8 – Deixe esfriar, e sirva. Eu nunca desenformo esse pudim porque não dá tempo; basta que ele esteja morno, e já começa a desaparecer diretamente da forma. 😛

Dica muito indecente: sirva o pudim com doce de leite. Apesar de levar leite condensado, ele fica doce na medida certa, o que faz com que o doce de leite seja o acompanhamento ideal para quem é formiga.

Só não vale me xingar depois! 😛

Uma Estranha No Espelho

Há dois tipos de “eu sempre quis”.

Eu sempre quis conhecer Paris. Esse é um querer enorme, que depende de milhões de coisas para se realizar.

Eu sempre quis ter uma hora por semana para cuidar de mim. Para ler, fazer as unhas, o que der na telha. Para escrever, imaginar, pintar. Para mim, só para mim.

Esse é um querer simples e legítimo, que na verdade só depende de que eu me decida a torná-lo realidade. Desculpas e explicações de porque não posso ou não consigo ou não devo fazê-lo, me sobram. Mas na verdade só depende de mim.

Uma Estranha No Espelho

E eu não consigo compreender, realmente, porque temos tantos “quereres” que deveriam estar na lista dos realizados, não estão.

E porque aquelas pequenas, minúsculas coisas que são só para nós, são sempre relegadas ao final da lista de prioridades, até que caem pela borda? Até que esquecemos que um dia quisemos ler, fazer as unhas, sonhar de olhos abertos, preguiçar só um pouquinho?

Até que um dia, uma estranha no espelho pergunta “Quem é você? Onde você estava enquanto eu desaparecia afogada em lágrimas que não foram choradas?

Onde estava você, quando eu precisava sonhar, cantar, dançar, por um minuto que fosse?

Onde estava você quando tudo que eu pedia era um átimo de poesia?

Onde estava você quando eu tinha sede do rio, do verde e da terra?

Onde estava você, enquanto eu morria?

Image: A Kinich Ahau… – CC

Hoje Preciso de Silêncio

Hoje preciso de silêncio. De recolhimento. De paz e quietude. Hoje preciso ignorar o mundo lá fora, que chama aos gritos, exige, demanda.

Hoje é momento de estar só, de pensar, refletir, viajar pelas terras internas. Ter um tempo só meu, ininterrupto como as águas do rio. Hoje não quero falar, dizer, contar.

Hoje quero ser só eu. Em silêncio.

Photobucket

Hoje preciso da solidão que Clarissa Pínkola Estés descreve no livro “Mulheres Que Correm Com os Lobos”:

A solidão não é uma ausência de energia ou de ação, como acreditam algumas pessoas, mas é, sim, um tesouro de provisões selvagens a nós transmitidas a partir da alma. Nos tempos antigos, a solidão voluntária era tanto paliativa quanto preventiva. Ela era usada para curar a fadiga e para evitar o cansaço. Ela era também usada como um oráculo, como um meio de se escutar o self interior a fim de procurar conselhos e orientação que, de outra forma, seriam impossíveis de ouvir no burburinho do dia-a-dia.

As mulheres dos tempos antigos, assim como as mulheres aborígines modernas, reservavam um local sagrado para essa indagação e comunhão. Tradicionalmente, diz-se que esse lugar era reservado para a menstruação, pois durante esse período a mulher está muito mais próxima do auto-conhecimento do que o normal. A membrana que separa a mente consciente da inconsciente fica, então, consideravelmente mais fina. Sentimentos, recordações e sensações que normalmente são impedidos de atingir a consciência chegam ao conhecimento sem nenhuma resistência. Quando a mulher procura a solidão durante esse período, ela tem mais material a examinar.

No entanto, nas minhas conversas com mulheres de tribos das Américas do Norte, Central e do Sul, assim como com descendentes de algumas tribos eslavas, descobri que os “lugares das mulheres” eram usados a qualquer hora, não apenas durante a menstruação. Descobri, ainda, que cada mulher muitas vezes tinha seu próprio “lugar da mulher”, que podia ser uma certa árvore, algum lugar à beira d’água, algum aposento natural criado pela floresta ou pelo deserto, ou alguma gruta oceânica.

Minha experiência de análise com mulheres me leva a crer que grande parte do mau humor pré-menstrual da mulher moderna não representa apenas uma síndrome física, mas também pode ser atribuído ao fato de a mulher se ver frustrada na sua necessidade de reservar tempo suficiente para se revitalizar e se renovar.

Sempre rio quando ouço alguém citar alguns dos primeiros antropólogos que afirmavam que as mulheres menstruadas de várias tribos eram consideradas “impuras” e forçadas a deixar a comunidade até que tivessem “terminado”. Todas as mulheres sabem que, mesmo que existisse um exílio ritual forçado como esse, cada uma das mulheres, quando chegada sua hora, sairia da aldeia triste e cabisbaixa, pelo menos até não estar mais à vista, e de repente sairia saltitante pelo caminho, tagarelando o tempo todo.

Como na história, se fixarmos uma prática regular de solidão voluntária, estaremos propiciando uma conversa entre nós mesmas e a alma selvagem que se aproxima da terra firme. Agimos assim não só para “estar perto” da nossa natureza selvagem e profunda, mas, como na tradição mística desde tempos imemoriais, o objetivo dessa união é o de que nós façamos perguntas e de que a alma dê conselhos.

Quanto tempo faz que você não conversa com sua alma?

Image: When The Night Falls – Alice Popkorn – CC

Tempo de Recomeçar

Janeiro é um mês mágico.

O ano velho, o que não pôde ser, o que não deu tempo, o que não chegou à ser e ainda não foi desta vez, ficou para trás.

Janeiro nos dá a oportunidade de recomeçar. Nos permite olhar a vida com esperança renovada, fazer planos com entusiasmo, acreditar, tentar novamente.

Temos um novo ano pela frente, 12 meses intocados, frescos, abertos. Um mar de possibilidades. Telas em branco, janelas abertas. Que possibilidades esses meses nos trarão?

Tempo de Recomeçar

Em Janeiro, quero abrir os olhos e acreditar que tudo é possível.

Em Fevereiro, quero tempo para ouvir a alma, para celebrar a quietude e o silêncio. Mesmo que seja Carnaval.

Em Março, quero me despedir do verão com gratidão, e abrir às portas de par em par para receber a frescura do Outono.

Em Abril, quero ouvir a chuva e guardar as sementes que germinarão na Primavera.

Em Maio, quero atesourar segredos como se fossem poemas e desenvolver projetos como se fossem sonhos.

Em Junho, quero guardar lembranças e me aprovisionar de esperança, para os meses escuros de frio.

Em Julho, quero aquecer meu coração à beira do fogo do lar, e repensar o que foi até então.

Em Agosto, quero me sentar ao sol e ver que ainda há tempo. Que ainda tudo é possível.

Em Setembro, quero abrir a casa e sentir cheiro de terra molhada, e ver o mundo como se fosse novo outra vez..

Em Outubro, quero acender uma vela pelos que se foram, e deixar ir o que deve ir.

Em Novembro, quero lembrar do mar, encontrar uma bússola nova, ajustar o rumo e navegar no vento.

Em Dezembro, quero celebrar as possibilidades que o ano trouxe, me despedir dos meses que se foram, e dar as boas vindas aos novos sonhos que Janeiro trará.

Que possibilidades você pedirá, ao ano que recém recomeça?

Imagem: h.koppdelaney

Será Que Ainda Dá Tempo?

Será que ainda dá tempo?

Será que ainda tempo, antes das 12 badaladas finais de 2009?

Será que ainda dá tempo de cumprir mais uma meta? De atravessar mais uma linha de chegada e comemorar mais uma vitória? De cumprir o plano, tentar mais uma vez, fazer melhor, desfazer o mal-feito?

Será que ainda dá tempo de reparar o dano, de fazer as pazes, de dizer o que tinha que ser dito, de deixar o dito pelo não dito? De calar a boca, de finalmente falar, de cantar, de chorar? Será que ainda dá tempo de marcar aquele encontro, dar aquele telefonema, oferecer aquele sorriso?

Será Que Ainda Dá Tempo?

Será que ainda dá tempo de respirar fundo e contar até dez? Haverá ainda tempo para ter paciência, para esperar, para sonhar, para acreditar?

Será que ainda dá tempo de planejar, decorar, cozinhar, convidar? Será que ainda há tempo para pensar, perguntar, combinar? Será que dá tempo para parar, olhar, pesar os prós e os contras, será?

Será que ainda dá tempo de descansar? De dormir só um pouquinho?

Será que ainda há tempo para mudar de vida, de idéia, de corte de cabelo? De emprego, de profissão, de faculdade, de partido?

Será que ainda dá tempo de desistir? De começar de novo? De se olhar no espelho e dizer “Bom dia!”, talvez?

Será que ainda dá tempo de se arrepender, de acabar com essa brincadeira, de mandar tudo às favas e ir morar no Farofistão? De voltar atrás, de mandar notícias, de terminar a relação de uma vez por todas, de fazer um acordo, de tirar uma foto, de tomar uma cerveja, de fazer um brinde, de comer cerejas?

Talvez escrever um poema, plantar uma árvore, defender uma tese, abrir um negócio, navegar os sete mares, inventar uma idéia nova, correr 10 quilômetros, deixar um comentário, mandar uma carta. Pintar a sala, trocar os tapetes, ficar de pés descalços, sentir cheiro de jasmim, acender um incenso. Aquele incenso de sândalo já descolorido e sem perfume, após tanto tempo guardado entre páginas dispersas e sonhos mofados.

Será que ainda dá tempo?

Imagem: Gadl

O Dia Que Nunca Chegará

Estou sempre esperando por aquele momento em que estarei com todas as minhas obrigações, tarefas e pendências em dia, e poderei viver tranquilamente, dando “a cada dia sua lida”.

Vivo acreditando que vai chegar aquele dia em que não terei tantas preocupações, em que as coisas acontecerão uma de cada vez, em que os problemas (que serão pequenos) farão fila ordenadamente para acontecer, de modo à não me assoberbar.

Ha!

O Dia Que Nunca ChegaráEm suma, vivo à espera de um dia que nunca chegará. Se em 31… Ooooops, se em 32 anos não chegou, a esta altura eu já deveria ter percebido que não chegará.

Porque a vida não para, e não me deixa parar. No máximo, eu e ela combinamos pausas, que são nada mais do que isso: pausas, logo seguidas pelo recomeço do dia a dia e suas lides.

Porque eu não paro quieta, porque abraço mais projetos do que posso abarcar comodamente, porque eu faço questão de cuidar tanto do trabalho como da casa como das relações afetivas como do ócio como do aprendizado como…

E não estou disposta a abandonar nenhuma dessas coisas, pois todas elas são importantes para mim.

Eu poderia apostar que você vive em uma espera semelhante. Em uma situação semelhante.

Mesmo depois que aprendemos a filtrar compromissos e proteger nossa atenção, depois que aprendemos a dizer não e compreendemos que não podemos fazer tudo o que gostaríamos, ainda assim o tempo parece não ser suficiente. As coisas nunca se encaixam com perfeição, os problemas e imprevisto nunca deixam de aparecer, e a lista de pendências jamais parece estar disposta a encurtar.

Então, o que podemos fazer? Conformar-nos em viver eternamente correndo atrás do tempo perdido? Lamentar-nos? Dar-nos por vencidas?

Não. Creio que a única solução é encarar as coisas de outra forma. Ser consciente dessas limitações, e aceitar o fato de que não posso fazer tudo, que as pendências são parte da vida. Parar de esperar o dia que nunca chegará.

Essa consciência eliminará a sensação de urgência, de fracasso, de estar em falta, sempre devendo alguma coisa (e não estou falando de dinheiro). Saber que fazemos o melhor possível, e que isso é suficiente, diminui em boa parte o stress diário, as dores de cabeça, a insônia.

E a verdade é exatamente essa: fazer o melhor que me é possível é suficiente. Fazer o melhor possível é a única coisa que realmente posso fazer.

Não digo que deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje. Mas temos que compreender que deixar para amanhã o que NÃO pudemos fazer hoje é perfeitamente aceitável. É o único caminho, a única alternativa.

Pretender o contrário, esperar que um dia possamos cumprir com tudo e com todos, colocar todas as pendências, tarefas e obrigações em dia, e finalmente não ter mais problemas, imprevistos, atrasos ou sobressaltos é ridículo, ilusório.

Este é o dia que pode chegar: o dia em que teremos um pouco de paz de espírito, apesar da infindável lista de pendências.

Só depende de nós.

Imagem: Medium as Muse

O Único Conselho

Uma conversa comigo mesma começou com a redescoberta deste texto: Amizade de Adolescente. A conversa continuou em A Amizade, Dezoito Anos Depois, e com A Tribo da Alma.

Eu tinha 14 anos. E a Nospheratt de hoje se pergunta: O que ela diria da minha casa? E de meus amigos? Das decisões que tomei, e de quem eu me tornei?

Que conselhos ela me daria?

Photobucket

Ela está orgulhosa? Em partes. Há fracassos, falhas, medos, que só eu e ela conhecemos. E embora não esteja orgulhosa deles, ela compreende. E perdoa.

Ela queria ser escritora. E morar sozinha. Não sonhava com riquezas, mas com uma vida tranquila.

Escritora somos e sempre seremos, embora não do jeito que imaginávamos. Jamais moramos sozinhas, e hoje isso não nos interessa; ambas amamos a pessoa com quem dividimos nosso teto, nossa vida. Ainda não vivemos tão tranquilas como gostaríamos, mas temos fé de que chegaremos lá. Um dia.

Ela acha ruim que eu tenha abandonado o artesanato, e que eu invista tão pouco tempo escrevendo coisas criativas. Os blogs são ótimos, mas a nossa escrita costumava ser mais que nada um exercício artístico, poético; e ela pergunta: onde ficou isso? E o artesanato, tantas horas boas passamos entre tintas, papéis, tecidos, gesso… Onde ficou isso?

E não tenho resposta. Claro que se o tempo não chega nem para cumprir compromissos e obrigações, difícil encontrar tempo para “coisas artísticas”… E no entanto, essas coisas eram (são?) importantes para nós. Talvez seja hora de encontrar tempo para a alma…

E ela não entende porquê, agora que posso sair todas as vezes que me der na telha, saio tão pouco. O que aconteceu?

Preguiça, frio, cansaço… A lista de desculpas é enorme. Principalmente no Inverno, que por estas bandas não é nada fácil. Mas não posso deixar de me perguntar, será que passar tanto tempo “entocada” não é prejudicial para nós? Será que nosso humor não se beneficiaria de mais tempo fora de casa, fora de quatro paredes?

Da janela, o tempo cinza e chuvoso me acena.

A questão é que eu não sou mais uma menina de 14 anos, e jamais voltarei a ser. Não me sinto velha – cumprir 32 anos não fez a menor diferença – mas definitivamente não tenho mais a energia e a disposição da adolescência. Chame-se amadurecimento, envelhecimento, aprendizado, não importa. Eu cresci.

Ninguém me avisou que eu não teria 14 anos a vida toda. Ninguém me disse que um dia eu acordaria, e veria o mesmo rosto no espelho, mas tudo teria mudado. Que eu seria completamente diferente, e exatamente a mesma. Eu não sabia, mas isso já não importa.

O que importa, é que nós chegamos até aqui. Com novas e antigas cicatrizes, um pouco (talvez muito) mais sofridas, mas vivas.

E embora quiséssemos que a vida tivesse sido menos dura, temos orgulho de quem nos tornamos.

Conselhos? O único conselho, o mesmo de sempre, aquele que nos trouxe até aqui: tenha fé sempre que possível, e não desista jamais. Quando tudo mais falhar, conte comigo.

Imagem: DaEllis