O Único Conselho

Uma conversa comigo mesma começou com a redescoberta deste texto: Amizade de Adolescente. A conversa continuou em A Amizade, Dezoito Anos Depois, e com A Tribo da Alma.

Eu tinha 14 anos. E a Nospheratt de hoje se pergunta: O que ela diria da minha casa? E de meus amigos? Das decisões que tomei, e de quem eu me tornei?

Que conselhos ela me daria?

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Ela está orgulhosa? Em partes. Há fracassos, falhas, medos, que só eu e ela conhecemos. E embora não esteja orgulhosa deles, ela compreende. E perdoa.

Ela queria ser escritora. E morar sozinha. Não sonhava com riquezas, mas com uma vida tranquila.

Escritora somos e sempre seremos, embora não do jeito que imaginávamos. Jamais moramos sozinhas, e hoje isso não nos interessa; ambas amamos a pessoa com quem dividimos nosso teto, nossa vida. Ainda não vivemos tão tranquilas como gostaríamos, mas temos fé de que chegaremos lá. Um dia.

Ela acha ruim que eu tenha abandonado o artesanato, e que eu invista tão pouco tempo escrevendo coisas criativas. Os blogs são ótimos, mas a nossa escrita costumava ser mais que nada um exercício artístico, poético; e ela pergunta: onde ficou isso? E o artesanato, tantas horas boas passamos entre tintas, papéis, tecidos, gesso… Onde ficou isso?

E não tenho resposta. Claro que se o tempo não chega nem para cumprir compromissos e obrigações, difícil encontrar tempo para “coisas artísticas”… E no entanto, essas coisas eram (são?) importantes para nós. Talvez seja hora de encontrar tempo para a alma…

E ela não entende porquê, agora que posso sair todas as vezes que me der na telha, saio tão pouco. O que aconteceu?

Preguiça, frio, cansaço… A lista de desculpas é enorme. Principalmente no Inverno, que por estas bandas não é nada fácil. Mas não posso deixar de me perguntar, será que passar tanto tempo “entocada” não é prejudicial para nós? Será que nosso humor não se beneficiaria de mais tempo fora de casa, fora de quatro paredes?

Da janela, o tempo cinza e chuvoso me acena.

A questão é que eu não sou mais uma menina de 14 anos, e jamais voltarei a ser. Não me sinto velha – cumprir 32 anos não fez a menor diferença – mas definitivamente não tenho mais a energia e a disposição da adolescência. Chame-se amadurecimento, envelhecimento, aprendizado, não importa. Eu cresci.

Ninguém me avisou que eu não teria 14 anos a vida toda. Ninguém me disse que um dia eu acordaria, e veria o mesmo rosto no espelho, mas tudo teria mudado. Que eu seria completamente diferente, e exatamente a mesma. Eu não sabia, mas isso já não importa.

O que importa, é que nós chegamos até aqui. Com novas e antigas cicatrizes, um pouco (talvez muito) mais sofridas, mas vivas.

E embora quiséssemos que a vida tivesse sido menos dura, temos orgulho de quem nos tornamos.

Conselhos? O único conselho, o mesmo de sempre, aquele que nos trouxe até aqui: tenha fé sempre que possível, e não desista jamais. Quando tudo mais falhar, conte comigo.

Imagem: DaEllis

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Tristeza

Tristeza

Há horas em que a tristeza não tem nome.

Nem palavras.

Nem voz, nem silêncio, nem descanso.

Há horas.

Há tempos.

Assim. Desfigurados. Tristonhos. De medonhos sonhos tristes.

Fotos de moldura branca, uma janela aberta, o chuvisco manso lá fora. No peito.

As horas.

O tempo.

Que passou e não veio. Não disse, não trouxe, mentiu. Onde estava?

Alguém chorava. Ninguém ouviu o que não foi dito. Os olhos abertos e os lábios selados.

Umas horas.

Um tempo.

Calado. Melancólico, cansado. Triste e cabisbaixo sob tanto peso.

Que não chegou. Promessas vãs e esperanças tolas, os braços cegos carregando vazios.

E eu já não espero.

Imagem: Kr. B.

A Tribo da Alma

Como seria este texto sobre a amizade, se fosse escrito hoje, dezoito anos depois?

O tempo passa e não se detém no dia de hoje, não nos espera.

E quanto mais ele passa, quanto mais velhas nos tornamos, mais rápido ele caminha. Mas ele também traz presentes, que nos são generosamente oferecidos, se soubermos prestar atenção.

Lobo Solitário

Quando eu achava que tudo o que me restava era apenas a esperança de um jamais e as lembranças que ficaram dos sonhos que deixei e das pessoas que amei, a vida me ensinou que ela sempre vale à pena. Que o amor sempre pode florescer outra vez, e que novas lembranças se tecem todos os dias.

A vida se constrói a cada momento, aquilo que somos se constrói a cada escolha que fazemos. As escolhas que fiz, muitas delas duras e dolorosas, me levaram a encontrar por acaso, aquilo que andei buscando a vida toda: o tesouro que eu chamo de “a tribo da alma”.

Uma tribo pequena, um pequeno tesouro indizivelmente valioso; pois o valor das coisas da alma não se mede por tamanho, quantidade ou peso.

A tribo da alma são essas pessoas que encontraram seu lugar na casa da minha alma. Alguns entraram de manso, passo à passo; outros sem cerimônia, sem avisar. Cada um chegou do seu jeito, no seu tempo, trazendo presentes. Roubando meus medos, rasgando minhas desconfianças, conversando com minhas incertezas.

Alguns são risonhos, outros tristonhos, mal humorados no mais das vezes. A saudação secreta dessa tribo são as confissões trocadas sem perguntar, oferecidas como singelos votos de confiança. São olhos da alma que vêem os segredos da outra e balançam a cabeça em silêncio, como quem diz “Sim, entendo”. E entendemos.

Depois que encontrei a tribo da minha alma, até mesmo as tristezas mais tristes têm outra cor. A solidão ainda ronda, mas ela tem medo dessa tribo. A solidão se esconde em armários antigos, nas mais recônditas gavetas, porque eles estão lá, iluminando meus pensamentos e abençoando minha existência. Graças.

Hoje estamos juntos, carregando cada qual alguns sonhos maltrapilhos, incontáveis histórias, decisões inquebrantáveis, amargos aprendizados, profundas decepções. Estamos juntos, tecendo alguns novos sonhos, apostando teimosamente em nossos projetos, fazendo planos, rindo para não chorar, rindo porque é o melhor remédio, rindo porque achamos graça. Mantendo vivo o entusiasmo pela vida, apesar dos pesares. Compartilhando descobertas, e cada vez mais espantados na descoberta de nós mesmos, espelhados na alma do outro.

A Casa da AlmaIsso também vai passar um dia. E outras coisas virão, novas etapas, outras decepções, aquelas vitórias longamente esperadas.

Talvez nos separemos, mas o amor dado é para sempre. Depois que uma alma vê a outra, e se reconhece nela, cada uma será parte da outra por todo o sempre.

No futuro, quais lembranças teremos do momento que vivemos agora?

Vou lembrar de você para sempre. Não sei se você lembrará de mim, mas desconfio que sim; porque eu me dei por inteiro, dei aquilo de melhor que posso oferecer – um caixote de laranjas, os frutos daquilo que sou, meus sonhos, meu coração. Eu, nua na alma e nos ossos.

E porque você aceitou minhas humildes laranjas, é que vou lembrar de você para sempre. Porque você me acolheu em seu sorriso, me permitiu descansar ao pé de suas palavras, viu minha face escura e não voltou o rosto. Porque você não teve pena, mas compreensão. Porque você por vezes não foi capaz de entender minha loucura, mas me fez companhia mesmo assim. Porque você se atreve a sonhar comigo, celebrar comigo, chorar comigo.

E essas são as lembranças que me acompanharão, até o final do caminho.

Quero que terminemos o caminho juntos, porque o caminho se fez jornada quando nos encontramos. Se terminaremos esse caminho juntos não sei, o amanhã guarda seus segredos. O que sei é que mesmo que você não esteja lá, estará sempre comigo – carregando a luz que resgatou meus melhores sonhos, que iluminou minha solidão triste, que apagou a palavra “pária” de minha fronte.

Mas, acima de tudo, quero que terminemos o caminho juntos porque em você existe uma das melhores parte de mim mesma: aquela que ama você.

Acima de tudo.

Imagens: Reinante El Pintor de FuegoDelphine

A Amizade, Dezoito Anos Depois

Dezoito anos atrás (Dezoito? PQP, como passa o tempo!!), eu escrevi um texto sobre a amizade. Dedicado aos meus amigos da época. Eu tinha 14 anos.

O texto original está escrito em cursiva, e minhas considerações atuais sobre ele, em fonte normal.

Páginas EscritasO tempo passa e não se detém no dia de hoje, não nos espera.

Quanta razão eu tinha. Tanta, que não fazia real idéia do quanto isso é verdade. Quanto mais os anos passam, mais rápido eles parecem ir embora. É tão fácil perder um dia depois do outro, desperdiçar semanas e meses sem ao menos perceber o que a vida tem de belo. O que merece ser celebrado, desfrutado, aproveitado. Vivido.

Hoje eu sei que tempo desperdiçado é vida desperdiçada. Não no sentido materialista “tempo é dinheiro”, mas tempo desperdiçado em coisas vazias, mecânicas; tempo que não é usado para dar um abraço, um sorriso, uma palavra de ânimo. Tempo jogado na lata do lixo do arrependimento, da inércia, do medo. Tempo gasto em lamúrias, quando você poderia dar de ombros e dizer sorrindo: Ces’t la vie.

O que nos resta é apenas a esperança de um jamais e as lembranças que ficam dos sonhos que deixamos e das pessoas que amamos.

Oh, as frases dramáticas dos 14 anos… Na verdade, nos resta muito mais. As lembranças nos acompanham sempre, mas com 32 anos posso dizer que “esperança de um jamais” é algo que fica para trás com a adolescência; se você amadurece como deve ser, essas esperanças inalcançáveis são substituídas por sonhos e objetivos, por planos e projetos. Difíceis talvez, mas nunca impossíveis.

O que nos resta, além das lembranças, é a certeza de que sem importar quantas vezes tropeçamos e caímos, podemos erguer-nos outra vez. É o orgulho de ter vencido inúmeras batalhas. A satisfação de saber-se independente e dona do seu narizinho; o prazer e a alegria de poder recomeçar, quantas vezes sejam necessárias ou apropriadas.

E o tempo bem aproveitado, bem vivido. Os objetivos alcançados, as lições aprendidas, os sonhos conquistados – tudo aquilo que na adolescência não passava de promessas vagas e distantes.

A vida nos ensina a ser duros de coração e a não termos sentimentos. A única coisa que permanece sempre, mesmo que a vida pareça não ter valido à pena, são as lembranças.

A vida foi dura comigo desde sempre, e por isso aos 14 anos eu escrevi sobre “ser duros de coração e não termos sentimentos”, e por isso achava que a vida poderia parecer não ter valido à pena. Com os anos, aprendi que é necessário proteger meus sentimentos, não ser “dura de coração”.

E aprendi que a vida sempre vale à pena, por muito dura que seja. As lembranças estão todas aqui, mas também o amor dado e recebido, e todas as coisas que já mencionei neste texto. Além de uma fascinação e uma curiosidade pelos novos capítulos desta aventura que eu chamo de vida; capítulos que se renovam todos os dias, embora eu tenda a esquecer disso.

Hoje estamos juntos, com os mesmos sonhos, o mesmo entusiasmo pela vida, as mesmas descobertas. Isso também vai passar um dia. Talvez nos separemos, pois nada é para sempre.

De fato, nos separamos. Nenhuma das pessoas que eu chamava de “amigo”, faz parte da minha vida hoje. Essas pessoas, com quem compartilhei meus sonhos, descobertas e entusiasmo de adolescente, ficaram para trás.

A principal razão é a separação geográfica, pois me mudei muitas vezes e hoje resido em outro país. No entanto, me pergunto: será que se eu tivesse permanecido no mesmo lugar, seríamos amigos ainda? Quanto dessas amizades de adolescência estão baseadas na convivência “forçada” pelo colégio onde estudamos ou o bairro onde vivemos, e quanto em genuína afinidade?

Claro que amizades profundas e verdadeiras nascem dessas circunstâncias; mas a maioria das amizades que eu tinha eram mais que nada circunstanciais. Ou todas elas, melhor dizendo. Mesmo com quem eu considerava “minha melhor amiga”, nunca senti uma verdadeira comunhão de alma; coisa que eu só experimentaria muitos anos depois. Com pessoas que nessa época, eu nem sonhava que poderiam existir.

No futuro, quais lembranças teremos do momento que vivemos agora?

Guardo boas lembranças. Nessa época, eu fiz parte da minha primeira tribo; e embora não fosse meu verdadeiro “clã”, aquele ao qual pertenço por questões de alma, foi extremamente agradável sentir, pela primeira vez na vida, que eu pertencia à um grupo e era aceita por ele.

Além disso, nessa época tive meus primeiros namorados, e levei meu primeiro fora. Embora isso tenha sido meio catastrófico para mim (afinal, eu era adolescente), hoje vejo tudo isso apenas como etapas necessárias do crescimento. Nem mais, nem menos.

É um pouco melancólico pensar que essas poucas coisas inesquecíveis, o são pelo que representam (etapas de crescimento) e não porque haja nada de particularmente memorável nelas. Mas… Ces’t la vie. 🙂

Quero lembrar de vocês para sempre. E quero que lembrem de mim. Quero que terminemos o caminho juntos, porque juntos vivemos o tempo dos nossos melhores sonhos. Para que esses sonhos não se percam.

A Amizade, Dezoito Anos Depois

Não sei se essas pessoas lembram de mim, mas isso hoje realmente não faz diferença. Eu lembro deles. Simplesmente, porque eles fizeram parte dessa etapa da minha vida.

Olhando hoje, posso dizer com objetividade que não havia nada de especial na nossa relação – nem de minha parte, nem da parte deles.

Se houvesse, essas relações teriam sobrevivido ao tempo e à distância; se fosse realmente importante, teríamos encontrado formas de manter a amizade viva.

O melhor de tudo, é que eu estava redondamente enganada.

O tempo dos melhores sonhos, é o hoje. Agora mesmo, neste minuto. Os sonhos não se perderam, eles cresceram comigo. Evoluíram, criaram asas, abarcaram o mundo.

Alguns desses sonhos se tornaram minha realidade de hoje; outros se traduziram em planos e projetos que são o meu cotidiano.

Mas sem dúvida nenhuma, o tempo dos melhores sonhos é o presente. Porque eu não perdi a capacidade de sonhar, de reinventar sonhos antigos, de abrigar novos sonhos.

Porque eu descobri que os sonhos podem se tornar realidade. Basta que eu não os abandone, e que me disponha a fazer o esforço necessário para torná-los realidade.

Mas, acima de tudo, porque considero vocês meus amigos. Acima de tudo.

Fui completamente sincera quando escrevi isso. A questão é que eu não tinha noção do que significava realmente “amigos”, quando o escrevi.

Eu achava – e coloque isso na conta da inexperiência – que amizade era simplesmente o resultado da convivência, que significava diversão compartilhada com pessoas que me agradavam. Algo bastante superficial, que no momento eu avaliava como profundo.

Muitos anos se passariam, antes de que eu pudesse avaliar o que realmente é uma amizade verdadeira.

Ainda tenho muito que dizer sobre isso. Vai ficar para o próximo post. E ainda não respondi a pergunta do final do post anterior: será que a menina que escreveu esse texto estaria orgulhosa da pessoa que se tornou?

Imagens: Laineys RepertoireKing Chimp

Amizade de Adolescente

No Dia do Amigo, eu lembrei de um texto que eu escrevi sobre amizade, quando tinha 14 anos.

Lá fui eu, revirar a montanha de cadernos que guardo (e que só cresce, pois apesar do computador, da Internet e do Evernote, continuo sem me separar do papel), até encontrar o bendito. Aqui está ele (e é pior, estilisticamente falando, do que eu lembrava):

Amizade de Adolescente

O tempo passa e não se detém no dia de hoje, não nos espera. O que nos resta é apenas a esperança de um jamais e as lembranças que ficam dos sonhos que deixamos e das pessoas que amamos. A vida nos ensina a ser duros de coração e a não termos sentimentos. A única coisa que permanece sempre, mesmo que a vida pareça não ter valido à pena, são as lembranças.

Hoje estamos juntos, com os mesmos sonhos, o mesmo entusiasmo pela vida, as mesmas descobertas. Isso também vai passar um dia. Talvez nos separemos, pois nada é para sempre.
No futuro, quais lembranças teremos do momento que vivemos agora?

Quero lembrar de vocês para sempre. E quero que lembrem de mim. Quero que terminemos o caminho juntos, porque juntos vivemos o tempo dos nossos melhores sonhos. Para que esses sonhos não se percam. Mas, acima de tudo, porque considero vocês meus amigos.

Acima de tudo.

Julho – 91

Após reler o texto, fiquei pensando em como ele seria, se fosse escrito hoje. E em quantas coisas eu estava certa ou errada, nas coisas que escrevi.

Eu estou vivendo agora o futuro do qual essa menina falava. Será que ela se decepcionaria, ao ver como as coisas aconteceram? Será que ela teria orgulho da pessoa que se tornou?

Hum, este assunto acaba de se tornar mais profundo do que eu pretendia. Com licença, vou meditar um pouco sobre isso – e volto no próximo post.

Imagem: Amir K.

A Arte de Dizer Não

Há algum tempo, surgiu na lista do Projeto Deusas uma discussão sobre “dizer não”. A dificuldade para “dizer não” parece ser um problema comum para as mulheres. É compreensível; fomos ensinadas a ser “boazinhas” e a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, para agradar aos demais.

Nos foi incutida a noção de que nosso valor, o apreço por nossa pessoa, só é possível se nos esforçarmos por agradar, por ser complacentes e estar sempre disponíveis – para todo mundo, o tempo todo.

E dizer não, mesmo que seja de vez em quando, não parece ser uma boa forma de agradar às pessoas; mesmo que esse “não” esteja plenamente justificado.

A Arte de Dizer Não

O resultado disso é que a mulher se dessangra na tentativa de ser aceita, dizendo “sim” o tempo todo, por mais abusivo ou absurdo que seja o pedido.

E o pior de tudo, é que esse comportamento não dá o resultado esperado: quanto mais complacente a mulher se mostra, na esperança de ser aceita e valorizada, mais ela é desprezada, espezinhada e abusada pelas pessoas que a rodeiam.

Soa familiar? Você precisa aprender a dizer não.

Não é fácil aprender a dizer não, não é. Mas vou dar uma receitinha pra vocês. 😉

1 – Saiba o valor que você tem.

Uma das primeiras coisas que aprendi com minha mãe, e que nunca esqueci, é o seguinte: dar o valor exato às coisas, nem mais, nem menos. Isso deve ser aplicado à tudo, desde pessoas até objetos, e começa pelo valor que damos a nós mesmas.

Claro que isso requer auto-conhecimento, clareza, trabalho interno – mas para isso estamos aqui, não é? É necessário trabalhar sua auto-estima, e ter o ego sob contrôle. O objetivo não é se tornar uma mulher prepotente, arrogante, cheia de si, mas ser uma mulher que tem plena consciência do valor que tem, e de como merece ser tratada.

Esse trabalho interno deve ser constante; não é um curso que você faz durante um tempo e depois que recebe o diploma, acabou, pode ir dormir sobre os louros. É um trabalho que dura a vida toda.

2 – Estabeleça limites.

Sabendo o seu valor, e se conhecendo, você sabe até onde pode ir, que tanto pode oferecer de si em cada momento, e onde estão os limites que não devem ser ultrapassados.

Lembre sempre que você não é super-nada, não é mártir nem santa, então, tem o direito de dizer “não“, “não posso“, “não quero“, “não estou a fim“, “dessa vez não” e outras coisas assim.

E lembre-se de que ninguém tem o direito de lhe explorar. Mesmo que você tenha se deixado explorar até o dia de hoje.

Quando você resolver dizer “Chega”, quando você começar a dizer não, as pessoas ao seu redor vão reclamar. Elas estão acostumadas a obter de você tudo o que desejam, do jeito que desejam e no momento que desejam.

Elas vão tentar lhe chantagear, fazer sentir culpada, dar a entender que você está sendo má, com o objetivo de lhe convencer a continuar dizendo sempre sim. Não se deixe levar.

3 – Dê-se tempo para pensar.

Nem que sejam 10 minutos. Evite a pressa de responder, e não se deixe pressionar para dar uma resposta instantânea.

Dificilmente um pedido é tão urgente que seja necessário que você responda no mesmo segundo. Acostume-se a dizer “Me dê 10 minutos. Vou pensar e já lhe respondo“. E NÃO ACEITE que o outro se escandalize ou ofenda porque você não disse “sim” automaticamente. Você tem todo o direito de pensar, avaliar e refletir antes de aceitar alguma coisa.

Se ao cabo desses 10 minutos você não tiver certeza de qual deve ser sua resposta, avise: “Olha, eu ainda não consegui decidir, vou refletir um pouco mais e assim que tiver resposta eu aviso“. Quanto mais importante for a questão, mais tempo você deve se dar para refletir.

4 – Coloque as coisas em perspectiva.

Um bom truque é inverter os papéis: imagine que fosse ao contrário, que fosse você quem estivesse fazendo o pedido, e a outra pessoa estivesse no seu lugar e situação.

Você acharia certo fazer esse pedido, essa exigência? Se a resposta for negativa, se você acharia errado pedir isso, se acharia que está abusando do outro, pode dizer não a ele.

Porquê? Porque evidentemente há algo de errado aí. Uma relação saudável deve ser uma estrada de mão dupla. Se estaria errado você pedir isso ao outro, provavelmente está errado que peçam isso pra você.

Você merece tanto respeito e consideração quanto qualquer pessoa que esteja perto de você. Jamais permita que lhe convençam do contrário.

5 – Seja objetiva.

Pergunte-se:

– Eu quero dizer sim?
– Eu posso dizer sim? A que custo? O que isso vai me custar em tempo, esforço, energia, desgaste emocional, etc?
– O pedido é abusivo? É errado de alguma forma?
– Que justificativa OBJETIVA há para que eu diga sim? É algo realmente necessário, imprescindível, importante?
– Que justificativa emocional há para que eu diga sim? Desejo de agradar, medo de ser castigada ou receber retaliações caso eu diga não, hábito de dizer sim?

E por aí vai. Questione seus motivos, os motivos do outro, e seja tão objetiva e realista como puder. Procure deixar as emoções (principalmente a chantagem emocional) de fora da equação.

Um Trabalho Constante

É um monte de coisas a levar em conta? Sim. Dá trabalho, leva tempo? Sim.

Até que você se habitue com o método, e ele passa a ser quase automático; a partir daí, todos os pedidos passam por esse crivo de forma fluída, e as respostas surgem de forma intuitiva, sem tanta ginástica mental.

Se você praticar esses questionamentos, cairá em situações abusivas com muito menor frequência, e após um tempo os pedidos abusivos deixarão de chegar – depois que as pessoas perceberem que você já não se deixa abusar.

Claro que há pessoas sem noção que nunca vão perceber que você não aceita mais abusos, e pessoas que ainda não conhecem você, e tentarão abusar. Geralmente, são pessoas que costumam abusar e aproveitar-se de todas as pessoas que as rodeiam, sempre que têm oportunidade. Com certeza você conhece (ou ainda vai conhecer) pessoas assim.

Por isso é importante manter-se sempre alerta, ter essas coisas presentes o tempo todo – acostumar-se a que cada pedido de alguma coisa seja um disparador desse processo. (Estou falando de pedidos de um certo nível de seriedade, não do tipo “Me passe o saleiro, por favor“)

Dá trabalho, e é um trabalho que deve ser feito durante a vida toda. Mas acaba com 99% dos abusos que aceitamos.

Para quem está com preguiça ou acha ruim ter que fazer alguma coisa durante a vida toda, deixo uma frase que me ocorreu há pouco tempo (parafraseando uma frase famosa), e que é uma das coisas mais verdadeiras que já percebi na vida:

“O preço de qualquer coisa que valha realmente à pena, é a eterna vigilância.”

Imagem: Alice Popkorn – CC

O Final da Jornada

Para quem se foi, e para os que ficaram.

Into The West – Annie Lenox

Into The West – Tradução

Apoie sua cabeça doce e cansada,
A noite está caído, você chegou ao final da jornada.
Durma agora, e sonhe com aqueles que vieram antes,
Eles estão chamando desde uma costa distante.
Porque você chora? O que são essas lágrimas no seu rosto?
Logo você verá, todos os seus medos desaparecerão.
À salvo em meus braços, você está apenas dormindo.

Coro:

O que você pode ver no horizonte?
Porque as gaivotas brancas chamam?
Através do oceano uma pálida lua se ergue,
Os navios vieram para te levar para casa.
E tudo se tornará vidro prateado,
Uma luz na água, todas as almas passam.

A esperança se dissolve no mundo da noite,
Através de sombras que se separam da memória e do tempo.
Não diga, “Nós agora chegamos ao final”.
Costas brancas estão chamando, você e eu nos encontraremos novamente
E você estará aqui em meus braços, apenas dormindo.

Coro:

O que você pode ver no horizonte?
Porque as gaivotas brancas chamam?
Através do oceano uma pálida lua se ergue,
Os navios vieram para te levar para casa.
E tudo se tornará vidro prateado,
Uma luz na água, Navios Cinzentos passam rumo ao Oeste.

Livre

Photo Credit: FreedomArchanaR

Eu quisera…

Rua Triste
Photo Credit: Eric Perrone

Eu quisera que a história fosse diferente.

Que nossos caminhos não fossem divergentes, que não nos houvéssemos afastado.

Que as mentiras fossem verdades, que aquilo que imaginei não fosse tão somente um sonho.

Que o amor não tivesse sido negado, e que abandono fosse nada mais que uma palavra.

Que houvessem risos, e segredos compartilhados, e colo e abraços.

Que a tristeza não fosse tanta.

AlémQue as perdas não fossem tão imensas, nem as feridas tão profundas.

Que viver fosse simples, e cheio de sol e música.

Que a quietude tivesse nascido da tranquilidade, e não da melancolia.

Que a dor que dividimos fosse compartilhada.

Que o medo não estivesse sempre presente.

Que eu pudesse chorar, sem temer não parar nunca mais de chorar.
Photo Credit: Riot Jane

Que eu não tivesse que ser tão forte como um rochedo.

Que eu não fosse tão solitária como um penhasco.

Que a miséria não me espreitasse.

Que as histórias tivessem finais felizes.

Que minhas mãos pudesse curar, e minhas palavras fossem consoladoras.

Que não houvessem mais batalhas, feridos de morte nem prisioneiros.

Que eu pudesse lembrar de um tempo sem pranto.

Eu quisera…

Continhos de Fadas Cretinas – Rosa

Bailarina Cor de Rosa

Era uma vez uma princesinha chamada Rosa.

Rosa nasceu e cresceu num mundinho cor de rosa. Desde pequena, foi acostumada a estar rodeada daquela cor açucarada. Sua mamãe, a rainha, encarregou-se de que tudo, desde as paredes e os tapetes, até os bonequinhos de pelúcia, parecessem feitos de algodão doce.

Muitas rainhas mamães fazem isso. O problema é que a rainha mamãe de Rosa extendeu a pintura cor de rosa ao que ia além das paredes e tapetes e bichinhos de pelúcia. A rainha mamãe de Rosa usava óculos cor de rosa, literal e metafóricamente falando.

A rainha mamãe ensinou a Rosa que nada era mais importante do que a ilusão da perfeita harmonia, da vida perfeita, de perfeitas relações.

Rosa aprendeu que qualquer coisa que escapasse àquela bolha rosada era feio, muito feio. Que o correto era ter sempre um sorriso colgate nos lábios, e ignorar a fealdade dos instintos. Que era melhor sufocar seus desejos, suas vontades, mas principalmente seu desagrado.

E chegou o dia em que Rosa saiu do quarto de paredes cor de rosa, com seu sorriso amarelo. E Rosa conseguiu um emprego. E para infelicidade de Rosa, sua chefe era uma bruxa malvada, que gostava de pisotear subalternos.

Rosa logo tornou-se a vítima preferida da bruxa, pois tudo aceitava, com o mesmo sorriso de algodão doce. E embora sofresse como uma cachorra, Rosa a todos contava como seu trabalho era maravilhoso, como ela importante para o funcionamento da empresa, como sua chefe a respeitava.

No entanto, apesar de suas palavras, a animosidade da chefe a chocava, bem como qualquer tipo de desacordo ou desagrado. Rosa nunca chegou a compreender como era possível que as pessoas se dessem tais luxos, como era possível que se espojassem no lamaçal da discórdia.

Corações Cor de Rosa

Mas Rosa nunca deixou de acreditar em sua bolha cor de rosa. Com o tempo, aprendeu a filtrar a dureza da realidade, de modo que ela mesma pudesse acreditar que tudo ia bem, que sua chefe era uma fada madrinha, que amava seu emprego.

E tão bem funcionava o filtro, que Rosa se apaixonou por um sapo. E resolveu casar com ele.

Rosa convenceu-se de que seu sapo era um príncipe, embora ele fosse frio e escorregadio, e nunca conversasse com ela. Através de seus óculos cor de rosa (herdados da rainha mamãe), Rosa via um príncipe encantado onde havia um sapo vestido de fraque, coaxando.

E se dizia: “Ele é tão introspectivo e pensativo… Esse jeitão calado lhe dá um ar de mistério deveras interessante.”

Casaram na Igreja, como toda boa princesinha de conto de fadas deve fazer; e Rosa mandou decorar o salão da recepção em… cor de rosa, é claro.

Rosa e o sapo tiveram sapinhos, e fizeram de conta para sempre que viveram felizes para sempre.

A moral da história fica por conta de vocês.

Photo Credits: Aussiegall

O Perdão e a Raiva

Perdoai a Quem Nos Tem Ofendido O perdão. Perdoar a quem nos tem ofendido… Perdoar aos que nos feriram, magoaram, prejudicaram, sacanearam.

Mesmo aos que o fizeram sem dó nem piedade, com intenção, com prazer.

Aos que nos pisotearam a não mais poder, que nos transformaram em pano de chão, em trapo, em tapete de limpar as botas.

Eu não. Eu não perdôo.

Não que eu não tenha capacidade de perdoar. O que não tenho é o desejo, a disposição.

Eu só perdôo, quando o perdão é bom pra mim. E nem sempre perdoar é bom para mim, apesar do que a nossa cultura católica nos impinge.

Perdoar é benéfico para mim quando a ofensa, a ferida é pequena. Quando foi feito sem intenção, por uma pessoa que me quer bem e a quem eu estimo.

Perdoar Não Significa Esquecer

E veja bem: perdoar não significa esquecer. Eu nunca esqueço.

Perdão e EsquecimentoQuando se esquecem as coisas, não aprendemos nada com elas – o sofrimento se torna inútil, pois não nos ensinou nada. Nem sequer nos deu ferramentas para reconhecer a mesma sacanagem no futuro.

Esquecer significa que falta um elemento que deveria fazer parte da equação que você usa para avaliar essa pessoa, para decidir quanto pode confiar nela. Quão vulnerável pode se mostrar a ela.

Por outro lado, temos as grandes ofensas, as feridas que levam anos para cicatrizar; aquelas que quase levam à morte – física ou da alma.

E temos ainda as feridas recorrentes, os golpes que se repetem ao longo da vida, que se tornam um hábito… mas que continuam a causar dores profundas.

Essas eu não perdôo. Nunca perdoarei.

A Raiva Como Combustível

Mas tenho um segredo. Eu não deixo isso lá dentro, em forma de ressentimento, me carcomendo como um câncer; não permito que essas feridas e cicatrizes sejam uma desculpa para ter pena de mim mesma.

Eu transformo isso em raiva. E a raiva é combustível. E esse combustível me leva a frente, me permite dar mais um passo, me permite não desistir. Me faz mais forte.

O perdão não é uma panacéia universal, não é obrigatório; nem sempre é desejável perdoar. Há que se aprender a usar o perdão com sabedoria e inteligência. E há que se aprender a utilizar de forma produtiva, o que fica conosco quando decidimos não perdoar.

Do contrário, o perdão é uma fraqueza, um hábito cumprido por obrigação que só nos faz mais frágeis, vulneráveis e machucados.

Photo Credits: Katie TegtmeyerStéphane O