Uma Estranha No Espelho

Há dois tipos de “eu sempre quis”.

Eu sempre quis conhecer Paris. Esse é um querer enorme, que depende de milhões de coisas para se realizar.

Eu sempre quis ter uma hora por semana para cuidar de mim. Para ler, fazer as unhas, o que der na telha. Para escrever, imaginar, pintar. Para mim, só para mim.

Esse é um querer simples e legítimo, que na verdade só depende de que eu me decida a torná-lo realidade. Desculpas e explicações de porque não posso ou não consigo ou não devo fazê-lo, me sobram. Mas na verdade só depende de mim.

Uma Estranha No Espelho

E eu não consigo compreender, realmente, porque temos tantos “quereres” que deveriam estar na lista dos realizados, não estão.

E porque aquelas pequenas, minúsculas coisas que são só para nós, são sempre relegadas ao final da lista de prioridades, até que caem pela borda? Até que esquecemos que um dia quisemos ler, fazer as unhas, sonhar de olhos abertos, preguiçar só um pouquinho?

Até que um dia, uma estranha no espelho pergunta “Quem é você? Onde você estava enquanto eu desaparecia afogada em lágrimas que não foram choradas?

Onde estava você, quando eu precisava sonhar, cantar, dançar, por um minuto que fosse?

Onde estava você quando tudo que eu pedia era um átimo de poesia?

Onde estava você quando eu tinha sede do rio, do verde e da terra?

Onde estava você, enquanto eu morria?

Image: A Kinich Ahau… – CC

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