A Amizade, Dezoito Anos Depois

Dezoito anos atrás (Dezoito? PQP, como passa o tempo!!), eu escrevi um texto sobre a amizade. Dedicado aos meus amigos da época. Eu tinha 14 anos.

O texto original está escrito em cursiva, e minhas considerações atuais sobre ele, em fonte normal.

Páginas EscritasO tempo passa e não se detém no dia de hoje, não nos espera.

Quanta razão eu tinha. Tanta, que não fazia real idéia do quanto isso é verdade. Quanto mais os anos passam, mais rápido eles parecem ir embora. É tão fácil perder um dia depois do outro, desperdiçar semanas e meses sem ao menos perceber o que a vida tem de belo. O que merece ser celebrado, desfrutado, aproveitado. Vivido.

Hoje eu sei que tempo desperdiçado é vida desperdiçada. Não no sentido materialista “tempo é dinheiro”, mas tempo desperdiçado em coisas vazias, mecânicas; tempo que não é usado para dar um abraço, um sorriso, uma palavra de ânimo. Tempo jogado na lata do lixo do arrependimento, da inércia, do medo. Tempo gasto em lamúrias, quando você poderia dar de ombros e dizer sorrindo: Ces’t la vie.

O que nos resta é apenas a esperança de um jamais e as lembranças que ficam dos sonhos que deixamos e das pessoas que amamos.

Oh, as frases dramáticas dos 14 anos… Na verdade, nos resta muito mais. As lembranças nos acompanham sempre, mas com 32 anos posso dizer que “esperança de um jamais” é algo que fica para trás com a adolescência; se você amadurece como deve ser, essas esperanças inalcançáveis são substituídas por sonhos e objetivos, por planos e projetos. Difíceis talvez, mas nunca impossíveis.

O que nos resta, além das lembranças, é a certeza de que sem importar quantas vezes tropeçamos e caímos, podemos erguer-nos outra vez. É o orgulho de ter vencido inúmeras batalhas. A satisfação de saber-se independente e dona do seu narizinho; o prazer e a alegria de poder recomeçar, quantas vezes sejam necessárias ou apropriadas.

E o tempo bem aproveitado, bem vivido. Os objetivos alcançados, as lições aprendidas, os sonhos conquistados – tudo aquilo que na adolescência não passava de promessas vagas e distantes.

A vida nos ensina a ser duros de coração e a não termos sentimentos. A única coisa que permanece sempre, mesmo que a vida pareça não ter valido à pena, são as lembranças.

A vida foi dura comigo desde sempre, e por isso aos 14 anos eu escrevi sobre “ser duros de coração e não termos sentimentos”, e por isso achava que a vida poderia parecer não ter valido à pena. Com os anos, aprendi que é necessário proteger meus sentimentos, não ser “dura de coração”.

E aprendi que a vida sempre vale à pena, por muito dura que seja. As lembranças estão todas aqui, mas também o amor dado e recebido, e todas as coisas que já mencionei neste texto. Além de uma fascinação e uma curiosidade pelos novos capítulos desta aventura que eu chamo de vida; capítulos que se renovam todos os dias, embora eu tenda a esquecer disso.

Hoje estamos juntos, com os mesmos sonhos, o mesmo entusiasmo pela vida, as mesmas descobertas. Isso também vai passar um dia. Talvez nos separemos, pois nada é para sempre.

De fato, nos separamos. Nenhuma das pessoas que eu chamava de “amigo”, faz parte da minha vida hoje. Essas pessoas, com quem compartilhei meus sonhos, descobertas e entusiasmo de adolescente, ficaram para trás.

A principal razão é a separação geográfica, pois me mudei muitas vezes e hoje resido em outro país. No entanto, me pergunto: será que se eu tivesse permanecido no mesmo lugar, seríamos amigos ainda? Quanto dessas amizades de adolescência estão baseadas na convivência “forçada” pelo colégio onde estudamos ou o bairro onde vivemos, e quanto em genuína afinidade?

Claro que amizades profundas e verdadeiras nascem dessas circunstâncias; mas a maioria das amizades que eu tinha eram mais que nada circunstanciais. Ou todas elas, melhor dizendo. Mesmo com quem eu considerava “minha melhor amiga”, nunca senti uma verdadeira comunhão de alma; coisa que eu só experimentaria muitos anos depois. Com pessoas que nessa época, eu nem sonhava que poderiam existir.

No futuro, quais lembranças teremos do momento que vivemos agora?

Guardo boas lembranças. Nessa época, eu fiz parte da minha primeira tribo; e embora não fosse meu verdadeiro “clã”, aquele ao qual pertenço por questões de alma, foi extremamente agradável sentir, pela primeira vez na vida, que eu pertencia à um grupo e era aceita por ele.

Além disso, nessa época tive meus primeiros namorados, e levei meu primeiro fora. Embora isso tenha sido meio catastrófico para mim (afinal, eu era adolescente), hoje vejo tudo isso apenas como etapas necessárias do crescimento. Nem mais, nem menos.

É um pouco melancólico pensar que essas poucas coisas inesquecíveis, o são pelo que representam (etapas de crescimento) e não porque haja nada de particularmente memorável nelas. Mas… Ces’t la vie. 🙂

Quero lembrar de vocês para sempre. E quero que lembrem de mim. Quero que terminemos o caminho juntos, porque juntos vivemos o tempo dos nossos melhores sonhos. Para que esses sonhos não se percam.

A Amizade, Dezoito Anos Depois

Não sei se essas pessoas lembram de mim, mas isso hoje realmente não faz diferença. Eu lembro deles. Simplesmente, porque eles fizeram parte dessa etapa da minha vida.

Olhando hoje, posso dizer com objetividade que não havia nada de especial na nossa relação – nem de minha parte, nem da parte deles.

Se houvesse, essas relações teriam sobrevivido ao tempo e à distância; se fosse realmente importante, teríamos encontrado formas de manter a amizade viva.

O melhor de tudo, é que eu estava redondamente enganada.

O tempo dos melhores sonhos, é o hoje. Agora mesmo, neste minuto. Os sonhos não se perderam, eles cresceram comigo. Evoluíram, criaram asas, abarcaram o mundo.

Alguns desses sonhos se tornaram minha realidade de hoje; outros se traduziram em planos e projetos que são o meu cotidiano.

Mas sem dúvida nenhuma, o tempo dos melhores sonhos é o presente. Porque eu não perdi a capacidade de sonhar, de reinventar sonhos antigos, de abrigar novos sonhos.

Porque eu descobri que os sonhos podem se tornar realidade. Basta que eu não os abandone, e que me disponha a fazer o esforço necessário para torná-los realidade.

Mas, acima de tudo, porque considero vocês meus amigos. Acima de tudo.

Fui completamente sincera quando escrevi isso. A questão é que eu não tinha noção do que significava realmente “amigos”, quando o escrevi.

Eu achava – e coloque isso na conta da inexperiência – que amizade era simplesmente o resultado da convivência, que significava diversão compartilhada com pessoas que me agradavam. Algo bastante superficial, que no momento eu avaliava como profundo.

Muitos anos se passariam, antes de que eu pudesse avaliar o que realmente é uma amizade verdadeira.

Ainda tenho muito que dizer sobre isso. Vai ficar para o próximo post. E ainda não respondi a pergunta do final do post anterior: será que a menina que escreveu esse texto estaria orgulhosa da pessoa que se tornou?

Imagens: Laineys RepertoireKing Chimp

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7 comentários sobre “A Amizade, Dezoito Anos Depois

  1. A percepção de que os sonhos não se perdem mas , crescem conosco, nós dá a noção exata da necessidade em apostar na construção do cotidiano!!Parabéns por estas reflexões.

  2. Depois desse lindo texto, de todas essas reflexões, você ainda tem dúvidas?? Eu não tenho! Aquela menina amadureceu, e o fez de uma forma tão bela, tão rica, tão sensível… isso é motivo de muito orgulho.

    Eu, aqui no meu canto, orgulho-me de ser tua amiga, apesar da distância. O que é a geografia, afinal? 🙂

  3. Muito bonito seu texto. Meio que me transportei através dele, embora tenha feito apenas uma leitura dinâmica. Tenho 51 anos hoje, e pensava nunca mais contatar com amigos do tempo de escola. Creia, tive a felicidade de reencontrá-los há 5 anos e resgatamos nosso carinho e festivos encontros, hoje já com os caminhos que prospectavamos na época, vencidos, alterados e totalmente partilhados nestes encontros de energia.
    Se um dia for para ser, você também reencontrará aqueles que fizeram parte daquele momento de sua vida.
    ab’s

  4. Que texto lindo. Me fez lembrar da minha infância e de pessoas que foram e ainda são muito importantes para mim. Me fez pensar no presente e na possibilidade dos meus sonhos, será que são possíveis, mesmo sendo imensamente difíceis? Me fez pensar que ainda posso encontrar esses tais amigos com os quais dividimos a alma, como você falou. E me fez querer viver mais, me fez querer curtir minha vida, de ser como uma criança novamente.

    Muito bom, Nospheratt! Quero mais! *O*

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