O Amor e a Ousadia

Há algum tempo, falei sobre a Arte de Ousar. Conforme prometido, hoje quero falar sobre o Amor e a Ousadia.

O amor é um grande combustível para a ousadia

Ousar também é uma questão pessoal e subjetiva. O que é atitude corriqueira para alguém, pode ser uma tremenda ousadia para outra pessoa.

O Amor e a Ousadia
Photo Credit: Nattu

Eu moro fora do Brasil – em Montevideo, capital do Uruguay – há mais de uma década. Conversando recentemente com um amigo sobre esse assunto, ele comentou que a decisão de encarar a vida em outro país (com tudo o que isso significa) é um ato de ousadia. É verdade, embora na época eu não o tenha percebido assim.

Esse mesmo amigo me contou que um mestre uma vez me lhe disse que “só cometemos o ato de ousar levados por dois fatores motivacionais distintos: ou o amor, ou o ódio.” Creio que essa teoria aproxima-se bastante da verdade, ao menos na maioria dos casos. No meu caso, a ousadia nasceu do amor. Eu deixei para trás tudo o que eu conhecia, para seguir meu grande amor.

Meloso? Talvez. Clichê? Certamente. Mas o fato é que aqui estou, onze anos depois, e o tempo mostrou que minha decisão foi acertada. Onde eu estaria hoje, se não fôsse pela ousadia, quem sabe.

Ousar nunca é fácil

O Amor e a Ousadia

Photo Credit: Not So Good Photography

Claro que nem tudo foram rosas. Muitas vezes o ato de ousadia traz em si uma perda já embutida. Quando eu decidi vir morar aqui, perdi muitas coisas: a proximidade de minha família, a convivência com os amigos, a tranquilidade de uma cidade pequena, a segurança de viver em um ambiente familiar.

Eu tinha 19 anos. Embora bastante madura para a idade, eu ainda era uma garota, quase uma adolescente. O baque foi grande. A saudade de casa, da minha gente, me custou muitas lágrimas. O ritmo da cidade grande, as distâncias, os perigos, tudo era assustador e desagradável.

O idioma não foi problema, pois eu já era fluente no espanhol; mas a idiossincrasia do uruguaio é muito diferente do brasileiro. Os códigos de conduta são outros; a sociedade é mais machista e conservadora, as pessoas são mais formais.

Até mesmo a televisão é completamente diferente, se rege por outras regras, fala não só outro idioma, mas outra linguagem. Como eu senti falta da Globo e do SBT (por incrível que pareça)!

O choque cultural foi tão grande, que eu me desestruturei completamente. Desde criança, sempre fui independente (segundo o que a idade permitia). E de repente me vi, com quase 20 anos, sem coragem para sair de casa sozinha. Durante um tempo, o único lugar aonde eu me aventurava a ir desacompanhada, era o armazém da esquina.

O sofrimento traz crescimento

Hoje, olhando para trás, a situação parece completamente absurda e ridícula. Na época, foi muito sério, de uma seriedade agonizante. Um período doloroso, que eu espero não repetir nunca mais, mas que não me arrependo de ter experimentando. A ousadia me acarretou sofrimento, mas também foi frutífera. Um famoso soneto de Francisco Luis Bernardez diz:

Porque después de todo he comprendido
que lo que el árbol tiene de florido
vive de lo que tiene sepultado.

(Porque depois de tudo compreendi, que o que a árvore tem de florida, vive do que tem sepultado.)

Eu assino embaixo. Eu saí desse período de adaptação mais forte, mais experiente, menos ingênua e menos frágil. Com um casamento muito feliz embaixo do braço. E através desse casamento é que me foram abertas as portas do Universo virtual, o que por sua vez tornou possível que eu esteja aqui hoje, escrevendo, conhecendo gente, participando de projetos interessantes.

Haverão perdas inevitáveis, riscos calculados e riscos imprevisíveis. É possível que haja sofrimento, angústia, medo. Escolhas deverão ser feitas, obstáculos deverão ser enfrentados. Provavelmente alguém se sinta ofendido, pois as pessoas detestam tudo o que vai contra o satus quo e as regras pré-estabelecidas. Mesmo assim, não desista.

Ousar também é uma questão de fé

O Amor e a Ousadia
Photo Credit: BackatmyRanch/Lisa /RedWillow

Minha metáfora favorita de ousadia é uma das últimas cenas do filme Indiana Jones e a Última Cruzada. Ele tem que superar três desafios, desvendar três enigmas pra salvar seu pai. O último deles é terrível: Indiana termina de atravessar uma caverna e ao sair dela, encontra-se diante de um abismo. Ele precisa atravessá-lo. Tentar saltar para o outro lado seria suicídio. Impossível, diz ele. Mas seu obejtivo – salvar a vida de seu pai – lhe dá coragem . Coloca a mão esquerda sobre o peito, fecha os olhos, entregue ao destino, e levanta uma perna sobre o abismo. Dá um passo à frente, e descobre que há um caminho sob seus pés.

É um teste de fé, mas também um teste de coragem. Ele ousa dar um passo rumo ao desconhecido, ao incerto; sem essa ousadia, seu objetivo jamais teria sido atingido.

Ousar vale à pena

Ousar vale à pena. Ousar é imprescindível, se você aspira ser mais do que um boi perdido no meio de uma imensa boiada. Ousar é uma arte, que pode ser aprendida, experimentada, refinada. A ousadia de ousar é uma aventura enriquecedora, que pode tornar sua vida mais plena e verdadeira.

Arrisque-se; ouse! E quem sabe o que o amanhã trará?

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3 comentários sobre “O Amor e a Ousadia

  1. adorei, espero ler outros textos assim, me fez pensar mais em mim, do que realmente pra minha vida…continue assim

  2. Olá,antes de mais nada adrei o “deusdario”. Sempre fui Funcionária Pública(sou aquariana com ascendente em peixes)e agora estou cansada preciso mudar, minha vida está um tédio,desde que me casei pela segunda vez e tive duas lindas filhas, deixei de cuidar de mim, deixei de olhar para mim.Adoro festas, adoro trabalhar com festas e não tenho coragem, não sou ousada para deixar o que faço e encarar o desconhecido, o novo. Suas palavas sobre a “OUSADIA” me acordaram e penso em investir mais no assunto, quem sabe até buscar uma ajuda, pois me falta OUSADIA para muitas outras coisas. Continue a escrever sobre o assunto. Obrigada.

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