Se o Inferno é Aqui na Terra, o Purgatório tem Várias Sucursais Públicas

O que segue, é uma história da vida real, protagonizada pela valente e sofrida autora deste humilde blog, originalmente escrita em um bloquinho de notas, no dia 19 de outubro do ano de 2006, uma ensolarada quinta-feira de primavera.

Esta emocionante saga contém drama, aventura, comédia, e alguns palavrões (com não poderia deixar de ser em uma história transcorrida em uma repartição pública). Você vai rir, você vai chorar, você vai se emocionar. Mas mais do que tudo, você vai se identificar com o sofrimento da heroína, tenho certeza.

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A imbecil que vos escreve, vos escreve sentada em uma cadeira de plástico, na seção Arrecadação da DGI (Dirección General Impositiva – o orgão que arrecada/rouba/extorsiona os impostos no Uruguay). A imbecil que vos escreve, precisa de um certificado. A imbecil (já sabem qual, a que vos escreve) telefonou para a DGI segunda-feira, para se informar sobre que documentos seriam necessários para tirar o certificado. Minha última pergunta ao telefone foi: “E quanto demora para que o certificado me seja entregue?” Resposta: “Se estiver tudo certo, lhe entregam no momento.”

Ótemo, ótemo, porque a imbecil aqui sabia que ia estar tudo certo; como boa imbecil que paga religiosamente seus impostos e guarda religiosamente todos os comprovantes. A imbecil aqui teve certeza de que terça-feira estaria com o certificado nas mãos.

Yeah, right.

Terça chego lá, na seção Arrecadação. Em nenhum lugar havia indicação alguma de onde se tiram os certificados. Havía uma mocréia balofa (atenção – eu não costumo julgar as pessoas pelo peso, mas essa mulherzinha me deu tanto nojo que vai de mocréia balofa mesmo) sentada sem fazer nada. Sei disso, porque eu havia passado por ela 10 minutos antes, e quando voltei ela não havia mudado de posição! Então, como ela estava ali dando sopa (pras moscas), fui perguntar para ela.

– Boa tarde, onde é que se tira o Certificado Único?

A maior cara de bunda que vocês possam imaginar se ergueu lentamente na minha direção e rosnou:

– Não é aqui.

A seguir, a cara de bunda descendeu de novo, pensando que eu ia ir me f*der (texto das entrelinhas do “Não é aqui”). Eu não ia deixar por essas. Indignada, espetei:

– E você tem idéia de onde é?

(Texto nas entrelinhas: O que você está pensando, mocréia mal-f*dida e mal-educada??)

A cara de bunda se metamorfoseou em cara de “coo”, mesmo.

– É aqui ao lado.

Ao lado, meus camaradas, era a mesa do lado, que estava ENCOSTADA na mesa de mocréia malfu. No entanto, ela tinha me mandado passear. Se eu não tivesse insistido, sabe Deus quantas voltas teria dado até achar um cristão que me ajudasse.

Eu até achei engraçado, porque ficou evidente que a mocréia em questão é mal-educada e grosseira, além de um ser humano de qualidade duvidosa.

Bom. Vou ao lado, me atende um senhor muito simpático, o que é uma raridade numa repartição pública. Aquí, tudo que é funcionário público parece mal-amado (ou malfu, se é que vocês me entendem). Não sei porquê, pois eles: não fazem merda nenhuma; dão – quando não têm mais opção – o pior serviço imaginável; recebem os melhores benefícios – adicionais, bônus, seguro, etc – entre todos os trabalhadores do país; têm emprego garantido, pois são inamovíveis; e cobram excelentes salários, pagos pela imbecil que vos escreve, e outros imbecis afins.

O senhor me diz com um sorriso: – Tenho número para quinta-feira às 12 horas. O quêêêê? Me fizeram vir até aqui, sendo que tive que passar correndo antes pelo trabalho do marido, para pegar um dos documentos necessários, o qual ele tinha esquecido de me entregar… Só para chegar aqui e voltar na quinta?? Mas que merda!! Porquê não dão número por telefone??

Sem mais “opição” (sim, fui sentada nesse mesmo), marquei número para quinta-feira ao meio-dia. O senhor ainda foi gentil: – Damos número para atender de forma organizada, cada um à sua hora.

Realiza comigo, Fernandinho: Ela acreditou!!! Querditei, sim, porque de vez em quando sofro umas crises de inocência galopante. Fui pra casa consolada pela idéia de ser atendida rápidamente na quinta-feira.

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Não percam amanhã o tragicômico desfecho desta emocionante minissérie em dois capítulos!

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